Pessoas próximas a Jango relembram última reunião no RS

Os últimos momentos do ex-presidente João Goulart no Brasil ainda estão vivos na memória das pessoas que eram próximas ao líder deposto no golpe de 1964. Após 50 anos, o ajudante de ordens do ex-presidente, Ernani Correa de Azambuja, relembra que foi em uma reunião na casa do comandante do 3ª Exército, general Ladário Pereira Telles.
“O Jango fez a pergunta: ‘se eu reagir vai haver sangue?’, e o Ladário disse que sim, haveria muito sangue. ‘Então eu sou contra’”, relembrou Azambuja.
A reunião foi realizada durante a madrugada do dia 2 de abril, logo após Jango chegar a Porto Alegre de Brasília. O ex-presidente ainda esperava negociar com os golpistas, mas o Congresso Nacional declarou vago o cargo de presidente da república.
“Foi tudo ilegal nesta vagância. Eles disseram que estava vago e o presidente estava no território nacional. Foi um golpe”, diz Antônio Ávila, assessor pessoal e amigo de Jango.
Também participava da reunião Leonel Brizola, que articulava a resistência em Porto Alegre. O objetivo era a retomada do mandato. “A ideia era essa, o Jango para o [Palácio] Piratini e reassumir a presidência da Republica”, conta Emílio João Pedro Neme, ajudante de ordens de Brizola.
O general Ladário sugeriu que Jango o nomeasse como ministro do Exército e o Brizola, como ministro da Justiça, para dar continuidade à resistência. “E aí poderia haver um contragolpe para manter o Jango. Principalmente se tivesse vindo no bolso do Ladário a requisição da Brigada, que foi a grande falha. Talvez tenha sido a maior falha, porque a Brigada ficou na mão deles”, conta Neme.
O temor de um conflito surgiu com a informação de que tropas norte-americanas estavam mobilizadas para apoiar o golpe. Jango decidiu partir para São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, onde nasceu. A decisão contrariou Brizola, que estava disposto a um confronto armado.
Na terra natal, Jango tenta retomar a rotina. No dia 3 de abril, uma pescaria foi registrada em uma foto, em que ele  aparece ao lado de Ernani de Azambuja e um grande peixe nas mãos. “Ele adorava pescar e já não dormia há três noites. Ele disse vai faria bem, e daqui a pouco tudo acalmaria”, relembrou o ajudante de ordens do presidente.
Mas a tranquilidade de Jango duraria pouco. “Depois, lá em São Borja começou a surgir a notícia de que o regimento de São Borja estava se preparando para cercar a fazenda e prender o Jango”, conta Azambuja.
O ex-presidente decidiu ir para o Uruguai, de onde se mudaria para a Argentina e morreria no exílio. Após 50 anos, o Ministério Público Federal (MPF) investiga se o ex-presidente foi assassinado durante o exílio na Argentina em 1976 por agentes das ditaduras uruguaia e argentina, em colaboração com o governo brasileiro, na chamada Operação Condor.
Baseado nas suspeitas, o órgão pediu a exumação do corpo de Jango, realizada no ano passado no cemitério de São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, cidade natal do ex-presidente. Em novembro, os restos mortais de Jango foram recebidos com honras de chefe de Estado em Brasília. Após os exames, os restos do ex-presidente foram devolvidos ao jazigo da família, no mês seguinte. Agora, o MPF aguarda o resultado de perícias em laboratórios na Europa, o que está previsto para novembro deste ano.
Fonte:G1

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